anatomia do silêncio

João, sem idade, e sem nenhum outro nome, viveu em silêncio porque assim lhe ditou a vontade e, por via da incompreensão dos outros, de migalhas que lhe entraram ex vano pela porta do esquecimento. O outro lado do espelho traiu-o revelando os caminhos por onde andou. Suportou, por isso, a face ferida por uma dor verdadeira que na verdade deixou sentir nem sequer se lembra. A voz foi-lhe decaindo na ânsia de a querer matar mais cedo do que alguma vez morreria o corpo. Nada se agitou dentro da sua pele de animal ferido acossado pela infâmia do amor. E tudo isto, para que nunca lhe fosse conquistado o coração que, fora do peito, manteve limpo de êxtase e desalento. Passou por todo o frio de todos os dias e de todas as noites mas não houve uma só lágrima que lhe desonrasse o rosto.

[ ~ 12. dez. 2018. ~ ]

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