o passeio

–  anda, vamos dar um passeio.
e pegava-me pela mão porque havia que atravessar a estrada nacional e a linha do combóio e passar pelas hortas que cheiravam a terra molhada. e depois metíamos-nos pelo caminho velho – todos os caminhos de terra batida eram velhos – e chegávamos aquele reino sem tempo: as salinas abandonadas. e eu, miúdo tardio, perguntava ainda porquê, desde quando, a quem pertencem, porque não lhes tiram o sal? uns charcos de terra, secos, gretada, manchada de todas as cores. e o sol tão forte zunindo na pele e a luz que cegava.
– não trouxe o chapéu, vou ficar doente.
– não faz mal, não ficas nada, anda lá.
e eu que não compreendia aquela terra de cardos, deserta, esquecida, o céu de zinco, o ar parado que bafejava como morto, tudo calcinado e transformado em pó, um inferno, uma fornalha por onde me puxavam pela mão.
– está quase, só mais um bocadinho.
e então aparecia. atrás de uma parede derruída de uma casa abandonada. ali, aos nossos pés. uma fita muito azul, subitamente vento, brisa, um alívio, ilhas de areia suspensas no ar, brancas, o céu de novo como ele é. e a mão na minha afrouxava e de dentro do coração pulsante por entre os olhos em chamas soltava:
– o mar!

[ ~ 07 set. 2018 ~ ]

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