o sofrimento dos outros

mais uma representação da obra sublime
do nosso complexo reptiliano
duas linhas diagonais
[o fotógrafo teve o cuidado de assim as dispor]
uma terra de ninguém a dividi-las
[espaço para tréguas ou presunção]
em cima estão os pés descalços, sujos e mortos
[silêncio ensurdecedor]
em baixo as cabeças, os olhos cavos, baços, sem vida
[total ausência de cor]
cabelos ensopados a levitar
[a inversão das coisas ou o mundo de patas para o ar]
a terra por baixo, vermelha, intensa
[uma metáfora do sangue entornado]
devolve uma luz quase divina
[devoção e vibração em demasia]
há vestes verde vivo
[a beleza das cores complementares]
e a mutilação dos corpos apenas se adivinha
[com a volúpia de um seio resguardado]
se ganhar o prémio grande
[nenhum protagonista na cerimónia]
será levantado o troféu
[pela mão do sobrevivo]
e invocadas com o coração
contrito e grande
as [últimas] vítimas de Parkland.

[ ~ 17 fev. 2018 ~ ]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s