adeus a Nova Iorque

chove torrencialmente na manhã em que partimos
a tempestade atingiu a costa leste, Manhattan submersa
e, porque nada nos resta, atravessamos a barreira
psicológica da sétima avenida rodopiando incessantemente
no torpor amarelo dos táxis liquefeitos pelo dilúvio pardo.
passar além da dor, com o corpo e a lembrança, é trespassar
os pântanos negros de New Jersey rumo ao elevador das almas
e reacender o deslumbre nos nossos olhos muito abertos
como crianças ensimesmadas de espanto.
somos românticos incuráveis, somos personagens sombrias
podemos ficar retidos durante horas, durante dias
e já nos dói por todo o lado o que acabámos de viver
já trocamos a memória pela saudade e o riso pelas lágrimas.
partimos, porque a chuva oblíqua nos obriga a partir
porque a torrente arrasta a gôndola negra sob a Bow Bridge
e não podemos ficar no lugar do cadáver desconhecido
que guarda o burburinho das águas em Bethesda Fountain.

[ 7 jan 2018 ]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s